Do palco às telas, Inabitáveis mostra a paixão entre dois homens negros

Espetáculo de dança terá apresentação gratuita no Theatro Carlos Gomes junto a gravação de curta-metragem

Fotos: Luara Monteiro (à direita) / Divulgação

Assistir a um espetáculo de dança e assim fazer parte de um filme. Esse é o convite para sábado, às 17h, no Theatro Carlos Gomes, quando será apresentada gratuitamente a obra Inabitáveis, da Cia In Pares, em que dois homens negros buscam sexo casual em meio a uma metrópole conservadora. A obra já existente fará parte de outra, um curta metragem ficcional de mesmo nome, que gravará cenas antes e durante a apresentação.

O roteiro e direção do filme, que deve ter 25 minutos de duração, é de Anderson Bardot, que começou a trabalhar como produtor do espetáculo de dança em 2013 e sonhou por anos em levar às telas algo relacionado com a obra. No audiovisual, a dança irá além dos palcos e passará pelas ruas, prédios e paisagens da Grande Vitória. “A linguagem do cinema é capaz de extrapolar o tempo e o espaço. Algumas coisas podem ser mostradas de forma mais didática, enfiar a mão na merda e mostrar como nossas cidades são racistas, homofóbicas, transfóbicas”, aponta o diretor.

O filme não é uma adaptação do espetáculo de dança. Na verdade, toma como pano de fundo o processo de produção da mesma. Os bailarinos Mauro Marques e Lucciano Coelho interpretam a si mesmos entrelaçados com personagens fictícios. Markus Konká encena o coreógrafo da obra, que também atua como guia turístico no sítio histórico de Queimado, na Serra, onde aconteceu a mais relevante revolta de escravizados no Espírito Santo. É lá que ele cruza com Pedro, estudante de 16 anos que ganha vida com Castiel Vitorino e vive em seu corpo e mente as questões relativas à homossexualidade e transexualidade e a vontade de dançar.

Com a primeira cena já gravada nas ruínas da Igreja de São José de Queimado, o curta-metragem terá nos próximos dias uma agenda intensa de seis dias de filmagens, com cenários como a Reserva de Jacarenema, o Centro de Vila Velha, o Jockey Clube de Itaparica, o Morro de São Benedito, a Catedral de Vitória, o edifício do Tribunal de Justiça, algumas delas escolhidas por serem consideradas anti-homoafetivas. As estátuas que permeiam a cidade também entram em cena, estáticas, representando a memória que celebra justamente alguns dos que mataram, escravizaram e subjugaram negros e indígenas.

O personagem coreógrafo, também historiador, traz a ligação entre corpo negro e história do Espírito Santo. O relógio da Praça Oito marca o tempo. Passado e presente se misturam. Enquanto dirige os ensaios de dança, ele pesquisa em arquivos antigos, reais, cujos textos trazem a marca de uma carne que foi mercadoria mas lutou e até hoje luta por libertação, como na dança contemporânea, sensual, (homo)sexual, em que os bailarinos se apresentam.

“O filme vai trazer a potência de como você pode utilizar seu corpo. O corpo é político, o corpo bicha é um corpo político, toda vez que você performa fora daquilo que é padrão, do que as pessoas esperam de comportamento por conta de seu órgão sexual”, considera Anderson Bardot.

De forma sutil, o filme deve retratar as dificuldades de produzir arte, seja por suas exigências emocionais e físicas seja pelo financeiro, assim como mostrar vivência dos corpos que não se adaptam à normatividade padrão e refletir sobre passado e memória.

Apesar de cenas duras em que preconceito e violência são explicitados, Anderson entende o filme como positivo. “Mostra desgraças sim, mas também vai falar sobre família, liberdade, resistência, sobre você se conectar com pessoas próximas que que pensam e tem afetividades próximas às suas”.

Das estátuas estáticas e opressoras que permeiam o filme, uma delas destoa, e justo a que mais indica movimento. É Dona Domingas, mulher negra, catadora de lixo, esculpida miúda, encurvada, carregando um saco nas costas, bem ao lado do início da escadaria que leva ao esplendor do Palácio Anchieta. É a outra história, dos inabitáveis, sendo contada. Em carne ou bronze, corpo e memória habitam a cidade.

AGENDA CULTURAL

Espetáculo Inabitáveis, da cia. de dança In Pares + filmagens de curta-metragem
Quando: Sábado (8/12), às 17h
Onde: Teatro Carlos Gomes - Praça Costa Pereira - Centro de Vitória/ES
Entrada franca. Retirada do ingresso uma hora antes da apresentação
Classificação: 16 anos

*Durante o espetáculo serão captadas imagens para o filme “Inabitáveis”, de Anderson Bardot, por isso o público presente deverá autorizar o uso de sua imagem e áudio para a produção da obra audiovisual citada.

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