‘Não tinha dinheiro, mas tinha fartura e saúde’

Em Degredo, Cleia viu a chegada da Petrobras e a destruição da pesca, agricultura e lazer da comunidade

“Não tinha dinheiro, mas tinha fartura e saúde”. Uma frase nostálgica e simples, que resume o que representa a presença da Petrobras, há meio século, na comunidade quilombola de Degredo, em Linhares, litoral norte do Espírito Santo. 

Quem nos conta é a pescadora profissional Cleia da Silva Costa, de 57 anos, que visitamos há um ano, em seu "Bar do Mel", em meio às expedições apoiadas pelo edital Mais Vida Menos Petróleo, da campanha Nem Um Poço a Mais, encampada por dezenas de organizações representativas de comunidades e povos afetados diretamente pela indústria petroleira no litoral brasileiro.


Foto: Leonardo Sá

“Qualquer pedacinho de terra produzia feijão, fava, melancia (estragava na roça), abóbora, mandioca. Cresci fazendo farinhada com meu pai. A gente criava galinha e porco, tinha peixe do rio e peixe do mar”, descreve. 

A água nesses tempos de infância, recorda, “cavava em qualquer lugar e era cristalina”. Mas com o tempo, a água foi ganhando um “risco vermelho”, estragando todas as cacimbas que abasteciam os moradores. Além da impossibilidade de beber da água, a contaminação vermelha também prejudicava a lavagem de roupas. “Quando ia na loja comprar roupa, branca nem pensar”, diz.

Em suas primeiras memórias do petróleo na comunidade, estão as dinamites. “Caminhão passando, máquina cavando perto da casa da gente. A casa da minha sogra rachou. Era muito dinamite, pra pesquisa”, relata. 


Foto: Leonardo Sá

As intervenções nas águas em função dos dutos do petróleo – são três a cortar a comunidade, conta Cleia – foram muitas, sendo o aterro no rio Ipiranga o mais significativo. “Diminuiu muito a vazão do Ipiranga e acabou com a pesca”, testemunha a pescadora. 

“Do aterro em direção ao Pontal do Ipiranga [balneário costeiro vizinho], não vê uma piaba mais. Só do aterro pra cá tem peixe”, diz, referindo-se à contaminação pela lama da Samarco/Vale-BHP, que acabou não chegando ao Degredo, graças ao terrível aterro, que, por fim, serviu pra alguma coisa boa. A falência da pesca, no entanto, não teve remediação. 

“Nem vou pro mar mais, nem pro rio. Meu bote tá lá no sol estragando. Era nosso lazer, dormia na praia com os meninos, vinha com o varal cheio de peixe pra salgar. Não tenho gosto mais de pescar nem passear”, balbucia.

Agricultura 

Além da água e da pesca, outro grande impacto foi na agricultura. Por conta das tubulações e riscos de explosões, Cleia conta que o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) passou, em 1982, a “proibir as roças”. 


Foto: Leonardo Sá

E os casos de descumprimento da lei são punidos com multa. “Multou um vizinho por causa de roça de mandioca que ele fez no aterro”, conta. “Eles criam as leis deles, mas não vêm aqui pra ver como a gente vive.  Até os coqueiros que a gente plantou tem que tirar licença pra tirar coco”, protesta. 

A inviabilização da agricultura levou muitas famílias a venderem suas propriedades e se mudarem para a sede de Linhares, cumprindo-se assim, o objetivo da indústria petroleira, que é expulsar as pessoas que vivem nos territórios que ela cobiça para a mineração. 

“Essas tubulações não ajudam a gente em nada”, constata. “A gente se sente prejudicado. Passa isso tudo debaixo do nosso nariz, no fundo da comunidade, a 200 metros. Se pelo menos empregasse mão de obra local, mas nem isso!”, exaspera. 

Emprego 

A falta de emprego é outro ponto crucial da devastação petroleira. A família de Cleia é uma exceção. O marido conseguiu emprego e o segundo filho também, que foi fichado em Vitória. “Fica 45 dias fora e dez em casa”, lamenta. “Fiz farinha pra pagar a bolsa que ele comprou pra viajar. Farinha de tapioca e farinha de coco”, conta.

 
Foto: Leonardo Sá

A aparente sorte dos dois homens, no entanto, se traduziu em dificuldades na administração do lar. “Fiquei em casa com dois filhos pequenos. Minha irmã teve que vir pra me ajudar”. 

Os dois são os únicos do Degredo a conseguirem emprego na Petrobras. E “pegaram gosto” pelo trabalho, tendo passado por várias empresas em vários estados, como Pernambuco e Mato Grosso. 


Foto: Leonardo Sá

Já o filho mais velho, Marcos, um “pescador nato”, seguiu um percurso mais comum da região e ficou apartado do “progresso”. Após o crime da Samarco/Vale-BHP e a impossibilidade completa da pesca, que já era difícil, cedeu à dependência do álcool” aos 26 anos, lamenta a mãe. “Pescava num bote a remo, na beira do mar, de domingo a domingo. Fazia rede com linha de corda achada na praia”. Agora, diz, “só Deus"”. 

Reconhecimento 

O recente reconhecimento da comunidade como quilombola, em 2016, trouxe um novo ânimo para os moradores remanescentes, até atraindo de volta à comunidade alguns que haviam saído para tentar a sorte na cidade. 

Cleia percebe que todos entenderem que morar na favela, passando dificuldade, não vale a pena. “Vai viver de quê? Muitos fizeram isso e hoje voltaram e moram em propriedades dos outros, porque perderam as suas, vendendo muito barato no passado”, relata. 

Se houvesse uma maneira dessas pessoas poderem trabalhar em seus próprios terrenos, projeta a pescadora, “tenho certeza que ninguém ia mais sair”. 

Outra solução, indica, seria a Petrobras implantar uma escola profissionalizante na região e contratar uma empreiteira que tivesse apenas mão de obra local. 

Uma compensação

Nenhuma das três soluções, no entanto, aconteceram. Em seu lugar, a petroleira construiu, como condicionante do empreendimento Cangoá-Peroá, uma fábrica de biscoitos. Após quase uma década de espera, a fábrica, batizada de Conquista foi inaugurada no último mês de agosto, com capacidade para vinte trabalhadores. 


Foto: Fábrica Conquista

A primeira remessa de produção teve como alvo a Fundação Renova. “A Renova ficou de comprar os biscoitos, pediu amostras. Nós corremos, produzimos. Fizemos três visitas lá e toda vez que vai é a mesma coisa, falta documento. Não comprou nada ainda”, reclama. “Estamos com estoque cheio, mas até paramos de produzir, porque ainda não tem onde vender”.

Apesar desse início difícil, as expectativas são boas. Há um amplo mercado a ser explorado na região, com a merenda escolar e as feiras, principalmente. Quando estabelecida essa clientela, a fábrica vai atender à sonhada complementação de renda das mulheres. 

Mas, o que esse futuro benefício significa para as famílias do Degredo, que há décadas sofrem com as mazelas criadas pela exploração da Petrobras? O aterro do rio, o fim da pesca e da agricultura, o êxodo dos homens em busca de emprego e de famílias inteiras, que tentam a sorte na cidade? 

“É muito menos do que ela já desfrutou da comunidade. Passam três tubulações de óleo aqui e a única coisa que nós recebemos até hoje foi essa agroindústria”, reconhece, mesmo sendo uma das contempladas. 

Amor



Da rápida vivência que tivemos naquela tarde com a família de Cleia, o que mais impressionou foi o amor pela terra, tão bela e tão devastada. Um amor típico dos povos tradicionais, que se sentem realmente parte do chão em que nasceram, aconteça o que acontecer. 

“Não tenho vontade de sair daqui. Amo meu lugar”, afirma Cleia, brilhando seus olhos esverdeados. 

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